Aeroporto Campo de Marte será desativado ou privatizado?
  • Joalisson Costa

Aeroporto Campo de Marte será desativado ou privatizado?

O destino do principal aeroporto de aviação geral do país depende de uma negociação que vai além de questões aeronáuticas


Em vermelho atual área do aeroporto Campo de Marte conta aproximada de 2,1 milhões de metros quadrados

A Infraero anunciou uma licitação para exploração de uso de uma área de quase sete mil metros quadrados no aeroporto Campo de Marte, dentro da cidade de São Paulo. Pelo edital, o espaço será destinado à prestação de serviços de treinamento e formação de pilotos e hangaragem de aeronaves, com possiblidade de manutenção de aviões e helicópteros e comercialização de peças e componentes de aeronaves.


O prazo da concessão será de 24 meses com preço mensal médio de 30 mil reais. A medida acontece em um momento de indefinição em relação ao principal aeródromo voltado à aviação geral do Brasil. O futuro do lugar é incerto e uma pergunta permanece no ar: o Campo de Marte será desativado ou privatizado?


O debate coloca em lados opostos dois velhos amigos. “O atual governador de São Paulo, o João Doria, sempre quis ser presidente”, revela o empresário Olavo Fontoura, neto do patrono de aviação brasileira, que dá nome à avenida em frente ao Campo de Marte. Ele diz isso com propriedade: “A gente se conhece desde jovem e o João já falava que queria dirigir o país”. Por isso, quando soube da intenção de Doria de fechar o aeroporto, Olavo, também conhecido pelo biotônico que leva seu sobrenome, sabia que a situação seria delicada. “Caso decidam fechar, para onde iriam todas estas aeronaves?”, pergunta-se Olavo, apontando para jatos, turbo-hélices e aviões a pistão baseados no hangar fundado por sua família.


João Doria parece estar decidido a desativar a pista de pouso o Campo de Marte, mantendo ali apenas operações de helicópteros e transformando a área em um parque público, “com prática de esportes urbanos, aproveitando as pistas construídas e o próprio museu aeronáutico”, conforme esclarece, em nota, a Secretaria de Governo de São Paulo. Os motivos ainda são pouco claros e o governador prefere não falar sobre o assunto de maneira mais aprofundada

O que se sabe é que a operação de aeronaves leves, incluindo aviões de instrução e até experimentais (como se viu no acidente que vitimou o empresário Roger Agnelli e mais seis pessoas, em 2016), sobre uma área densamente povoada sofre críticas dos que querem o fechamento do aeroporto, por questões de segurança. Nesse grupo dos que advogam contra os aviões, há os que consideram o Campo de Marte menos um aeródromo de interesse da população em geral e mais um reduto de “ricos que querem deixar seu avião próximo de casa para ir passar o fim de semana em Angra dos Reis ou outro destino turístico do país”. No fim, o governador pode colocar o plano em prática se conseguir que a União revogue a outorga da Infraero para operar o aeroporto e fique com o caminho livre para delegar o Campo de Marte ao Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (Daesp).  


Houve reação de parte da comunidade aeronáutica, que contesta o plano. Alegam que uma metrópole como São Paulo não pode prescindir de um aeroporto já instalado. “As grandes cidades do mundo, incluindo Buenos Aires, Londres, Paris e Nova York, são servidas por quatro, cinco, seis... nove aeródromos e nós temos só dois, querendo fechar um”, critica Flávio Pires, diretor-geral da Abag. “Em breve, com o potencial econômico do Brasil, os aeroportos de Congonhas e Guarulhos estarão saturados e faltará espaço para a aviação de negócios no centro financeiro do país”. Segundo projeções da indústria, até 2030 o número de passageiros deve dobrar em São Paulo.


POTENCIAL IMOBILIÁRIO


Projeção do que poderá ser o futuro museu aeroespacial de São Paulo e que depende do fechamento do aeroporto para ser concluído

Nos bastidores, o que se ouve é que a Zona Norte de São Paulo tem um potencial imobiliário extraordinário – leia-se dividendos para construtoras e incorporadoras e ganhos de arrecadação para o município, além de desenvolvimento urbanístico para a cidade –, que esbarra justamente nas restrições de construção impostas pela rampa de aproximação de aviões do Campo de Marte estabelecidas pelo Departamento de Controle de Tráfego Aéreo, o Decea, seguindo convenções internacionais das quais o Brasil é signatário.


O debate está aberto. Um empresário do setor aeronáutico, que preferiu não se identificar, diz que a disputa pela sucessão presidencial pode ter esvaziado os planos de João Doria, assim como a decisão de manter o plano de concessões dos aeroportos da Infraero à iniciativa privada. “O assunto ganhou outra conotação quando a equipe de Jair Bolsonaro percebeu o potencial de financiamento para a campanha de um possível adversário em 2022”, especula o empresário.


Para a comunidade aeronáutica, o maior problema é não ter onde alocar e operar as aeronaves hoje estabelecidas no Campo de Marte, que está entre os mais movimentados do país, conectando centenas de cidades não servidas pela aviação regular – interligou 529 municípios em 2018 e 1.287 em 2014, antes da crise –, e abriga o aeroclube de São Paulo, um dos principais celeiros de pilotos do país.


Além de estarem longe da capital paulista, Jundiaí se mostra quase saturado e Sorocaba tem estrutura mais voltada para manutenção. Mais perto, o novo aeroporto Catarina, em São Roque, por sua vez, nasce com uma proposta diferente. “Nosso perfil é de um aeroporto executivo internacional para grandes jatos, de longo e ultralongo alcances. Além disso, não estamos dentro da cidade”, reconhece um executivo ligado à JHS-F, responsável pelo empreendimento, que pediu anonimato. Ele concorda que a JHS-F seria beneficiada com o fim dos voos de aviões sobre a Zona Norte – tanto pelo aumento de demanda no novo aeroporto como pela exploração imobiliária do entorno –, mas considera que o fechamento do Campo de Marte está longe de ser a melhor opção para a cidade.


Na avaliação daqueles que discordam do fechamento, mas entendem a interesse imobiliário no entorno do Campo de Marte, existe uma solução intermediária, que seria investir em ferramentas de controle de tráfego aéreo (Rnav e PBN, por exemplo) capazes de tornar a rampa de aproximação mais íngreme, como acontece em London City, na Inglaterra. Segundo a Abag, hoje o Campo de Marte faz parte do projeto da nova Terminal São Paulo e terá entrada e saída IFR (instrumentos) a partir de 2020.


Embora a Abear declare que as atuais companhias aéreas que operam em Congonhas não têm interesse pelo Campo de Marte, um executivo desse mercado acredita que “o aeroporto seria perfeito para se fazer uma ponte aérea Rio-São Paulo com Jacarepaguá”. Para ele, a proposta de desativação é insustentável, até pelos interesses envolvidos.


O secretário nacional da Aviação Civil do Ministério da Infraestrutura, o economista Ronei Saggioro Glanzmann, diz que o objetivo é privatizar o Campo de Marte em 2021 ou 2022 dentro do bloco encabeçado por Congonhas, e conciliar os interesses ao estabelecer as exigências ao futuro concessionário. “Boa parte do PIB brasileiro passa pelo Campo de Marte, ele é estratégico para a cidade de São Paulo, os empresários têm necessidade de voar direto ao centro financeiro do país, mas entendemos a posição do governo estadual e as questões urbanísticas”, diz Glanzmann. “Estamos analisando tudo e trabalhamos para compatibilizar interesses, tendo como referência o London City. Quem ganha é São Paulo”.

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